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13/06/2017

CARTA DE CONJUNTURA #02: Crescimento de 1% do PIB: nada a comemorar

O Conselho Regional de Economia de Minas Gerais (Corecon-MG), reunido em plenária em 6 de junho de 2017, divulgou a seguinte Carta de Conjuntura:

 

Crescimento de 1% do PIB: nada a comemorar

No dia 1º de junho, o país foi surpreendido com um discurso, em tom de comemoração, do governo Michel Temer, elaborado com base em uma notícia recém-divulgada pelo IBGE: a economia brasileira acabara de registrar o primeiro resultado positivo após dois anos seguidos no vermelho. E o Produto Interno Bruto (PIB) crescera 1% no primeiro trimestre de 2017 em relação aos últimos três meses do ano passado. O próprio ministro da Fazenda disse não ter dúvidas de que a recessão havia acabado.

Evidentemente, toda a sociedade brasileira clama pela retormada do crescimento e a volta de um bem-estar social que parecia duradouro há tão poucos anos. Mas, infelizmente, as bases para esse retorno são bem mais complexas do que as expostas em declarações, por demais otimistas, de que o país superou a recessão que se instalou na economia a partir do segundo trimestre de 2014.

Em recente entrevista, o economista Regis Bonelli, vaticinou: “Não é unicamente uma virada na taxa de crescimento do PIB trimestral que vai dizer que a recessão acabou”. Para ele, basta examinar a série das taxas de variação do PIB em relação ao mesmo trimestre do ano passado para constatar que há uma enorme sucessão de taxas negativas.

“Não estamos antevendo nada muito brilhante para o segundo trimestre. Mantivemos a previsão de que vai ser negativa”, apontou. Bonelli, especialista da FGV, é membro do Comitê de Datação de Ciclos Econômicos (Codace) e profundo estudioso sobre o processo de desenvolvimento brasileiro.

Vale destacar, também, o fato de que o crescimento pontual do PIB se deu sobre uma base extremamente deprimida do trimestre anterior, o que reforça a vulnerabilidade da argumentação oficial sobre o fim da recessão.

Acreditamos que os brasileiros só poderão comemorar a retomada do crescimento, de fato, quando uma série de medidas essenciais  forem colocadas em prática. Entre elas, destacamos a redução mais expressiva da taxa básica de juros do Banco Central, a Taxa Selic. Com isso, o crédito voltará a ficar mais acessível, fazendo com que os empresários possam tomar maiores volumes de recursos para investimentos.

Uma queda mais acentuada da Selic teria também um efeito cascata sobre o crédito ao consumidor. Portanto, o país só poderá respirar mais aliviado quando houver a retomada de investimentos mais robustos, por parte das empresas, e do consumo mais consistente, por parte da população. São esses os elementos que garantem, de fato, o crescimento.

Mas esse processo depende de condições de médio prazo, que deveriam ser implantadas o mais rapidamente possível. Estimamos, com base em dados do IBGE, que, superada a crise, o país levará alguns anos para restabelecer os níveis de consumo de 2014. Hoje, parte das famílias está por demais endividada; e a outra parte não se sente segura para consumir.

O mesmo ocorre com os empresários, que ainda veem um forte risco na conjuntura, fazendo com que a taxa de confiança do mercado permaneça baixa e aquém do necessário para a retomada dos investimentos, em especial na indústria.

Por outro lado, o crescimento do PIB, ainda que tímido, está sendo possível graças ao desempenho de setores que não geram os impostos necessários para garantir o crescimento, como o de agronegócios e o de exportações. É preciso investir nos segmentos da indústria e de prestação de serviços – esses, sim, garantem uma maior arrecadação tributária ao governo e são mais intensivos em mão de obra. Esse é o caminho para se reverter o atual quadro de desemprego e recessão.

Até mesmo a reforma de previdência em curso precisaria ser vista sob a ótica de uma mudança estrutural necessária, a ser amplamente discutida com a sociedade. E não apenas como uma forma de corte de gastos, como tem sido a concepção governamental.

O quadro, portanto, é muito grave. Uma eventual disposição da equipe econômica de criar as condições para o crescimento, com a redução dos juros, seria contida por uma barreira cada vez mais intransponível, que é a total ausência de condições políticas do governo Temer de executar uma gestão eficaz da economia.

Em sua última reunião, os membros do Comitê de Política Monetária (Copom) admitiram que gostariam de reduzir a Selic em mais do que um ponto percentual. Mas não o fizeram em decorrência do quadro político, agravado pela recente divulgação da delação premiada dos donos da JBS, envolvendo diretamente o presidente.

O país depende, portanto, de um desfecho convincente para a crise política. Esse será o passo essencial para enfrentar os desafios da atual conjuntura.

Só assim vamos garantir a retomada do crescimento, que deve vir atrelada a políticas capazes de recolocar o país nos rumos da justiça social.

A partir daí, será preciso trabalhar com muita dedicação para melhorar a qualidade dos gastos públicos e promover iniciativas empresariais que elevem a taxa de investimentos em relação ao PIB e sejam capazes de ampliar o emprego e a renda na velocidade que a sociedade espera.